CAETANO VELOSO - Doce como Coca-Cola

Em 1982, o disco "Cores, Nomes" de Caetano Veloso foi lançado. Eu tinha 13 anos apenas. Mas meus irmãos mais velhos já tinham o costume de fazer rodas de violão no portão da nossa casa nesta época. E canções como "Queixa" e "Trem das Cores" faziam parte do repertório. Sempre fui fã de Caetano, desde que me entendo por gente e sem saber exatamente o porquê. Não é fácil se entender Caetano aos 13. Impossível, eu diria...
Para compreender as letras, eu pesquisava. Nos loucos e coloridos anos 80, não havia internet e nem muito menos Google. Nada era fácil. E muito menos se morando na Baixada Fluminense. 
Recorria aos livros, muitos emprestados. Havia uma coleção que marcou época e que se comprava nas bancas de jornais chamada "Literatura Comentada". Ansiava pela chegada do próximo fascículo, até que o número dedicado ao baiano apareceu na nossa estante. 
Passei então a entender o significado de neologismos como "Sampa" e as definições de termos como "poesia concreta" ou "túmulo do samba".
A adolescência foi cercada de muita música. Eu fazia parte da turma do teatro e conhecia todos os músicos de Nova Iguaçu, minha cidade natal.  Cantava em bares esporadicamente acompanhando minha amiga Suzane Seiça - esta sim, uma profissional no assunto. E ensaiávamos um repertório onde Caetano habitava em pelo menos 60 por cento. 
O tempo passou, vim morar em Natal, virei jornalista, fui trabalhar na TV e no ano de 2009 surgiu a ideia de fazer uma coluna de cultura para preencher a imensa lacuna da programação das afiliadas da Globo nas tardes de sábado. Nasceu então a coluna "Cores e Nomes". O título, uma homenagem sentimental à minha adolescência tão rica musicalmente. A proposta era a de traçar perfis de artistas potiguares - anônimos ou não -  e nacionais. Muitos artistas passaram pelo quadro até chegar o momento de homenagear o "padrinho" dele. Caetano Veloso estaria em Natal para um show único ao lado de Maria Gadu no Teatro Riachuelo. 
Entrei em contato com Alexandre Maia, produtor local do show e meu amigo de muitos anos. 
Ao me informar sobre o horário de sua chegada, pensei em desistir.  O desembarque estava previsto para as 11 da noite. 
Falei com Ana Luiza Câmara, diretora de Jornalismo na época - confesso que sem muita esperança - sobre a possibilidade de me disponibilizar um cinegrafista para a empreitada. 
Mas Ana foi contundente: "Caetano é Caetano. Pode ir!" 
Mas e se o voo atrasasse? E se o possível entrevistado estivesse muito cansado? 
Eu e o repórter cinematográfico Robson Celino chegamos por volta das 10 da noite no hotel. Em minhas mãos, o vinil "Cores, Nomes" presenteado por minha melhor amiga, Suzane,  ainda na adolescência.
Estava nervosa e não costumo ficar nervosa em entrevistas.
Já era uma jornalista experiente nessa época e cheguei a entrevistar repetidas vezes alguns artistas. 
Mas Caetano, o padrinho da coluna, a trilha sonora dos meus 13 anos, era a primeira vez. 
Diante de uma experiência não muito agradável com a irmã Maria Bethania anos antes, temia uma decepção maior do que a que eu pudesse suportar. 
Ele chegou. 
Quando a porta automática do hotel se abriu ele veio, de imediato, na minha direção.  
Atrás dele, dois assessores que insistiam na pergunta "você não quer subir antes?"
Caetano respondeu de forma quase seca: "Não. Marquei com ela agora e vou fazer a entrevista agora."
Pediu uma Coca-Cola, a luz da câmera acendeu e nosso papo começou. 
Falamos sobre tudo! Sabia tudo - ou quase - sobre sua vida e carreira. Falamos de filhos, de parcerias, de Gil, de amigos, de Dona Canô, de passado, presente e futuro.  
Não queria parar mais! Queria continuar ali conversando com aquele homem franzino que durante anos encheu de música meu quarto e minhas festas.
Desligamos a câmera e em seguida fui surpreendida por um abraço apertado e demorado iniciado por ele. 
Emocionada, bati sem querer na mesa e uma cachoeira de Coca-Cola nos banhou.  
Ele, rindo generosamente, me disse: "Isso é um batismo! Agora assim, nosso encontro foi selado."
 
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Depois deste, outro encontro aconteceu. 
Caetano Veloso encerrou o Festival Literário de Natal no ano de 2013. E eu, mestre de cerimônias, abri a mesa de debates mediada por Dácio Galvão, secretário de Cultura de Natal.
Ao anunciar seu nome, ele veio da coxia, com o mesmo sorriso e um novo e demorado abraço. 

 

Assim como na primeira vez, doce como Coca-Cola.