Os mil tons de Milton

Cheguei logo cedo. Costumava entrar ao meio-dia para me maquiar, ficar pronta logo para a gravação da coluna e para a apresentação do RNTV à noite. 


Sempre fazia isso. Mas naquele dia a ansiedade tomou uma proporção que eu desconhecia. Nunca enfrentei nenhum tipo de nervosismo para entrevistar ninguém - exceto Caetano Veloso, o padrinho da coluna... -  Uma sudorese inexplicável nas mãos, fazia de mim uma debutante prestes a dançar a valsa pela primeira vez. Cheguei na emissora por volta de 11 e meia da manhã para uma gravação que estava marcada desde o dia anterior para uma da tarde, num dos muitos hotéis 5 estrelas da Via Costeira. Naquele cenário de mar por todos os lados, eu aguardava por um carioca de nascimento, que viveu a vida quase inteira num lugar sem mar. Milton Nascimento, tinha apenas um ano e meio de idade quando "renasceu" mineiro. E fez das Minas Gerais, de montanhas, cachoeiras, rios e nenhum mar, o mote para boa parte de suas canções. 

Eu já tinha explorado todos os cenários daquele hotel. Já havia entrevistado uma dúzia de artistas lá. Precisava de algo inédito, especial. Pedi que me levassem até o segundo andar para que eu pudesse dar uma olhada nas salas usadas para reuniões de negócios. Tudo muito frio, com uma imensa mesa oval cercada de cadeiras e paredes brancas e sem quadros. Porém, com total privacidade.
Olhei para o corredor e tive o insight em sincronia com o repórter cinematográfico Edmilson Santos. Lá havia plantas, paredes coloridas, cadeiras de palhinha e uma quadro com temática de cordel.  O cenário pra mim seria aquele, mas se o entrevistado não topasse voltaríamos a estaca zero. Um local de passagem, onde funcionários e hóspedes transitam o tempo inteiro, talvez incomodasse uma estrela de tamanha grandeza. A decisão seria dele. 
Aguardei pacientemente pelos 15 minutos seguintes que mais pareciam uma eternidade. 
De repente, as portas do elevador se abriram e, com elas, minhas pupilas. Diante de mim, estava a figura altiva, de voz gravíssima, dono e detentor de uma das trilhas sonoras da minha vida. Milton Nascimento e o Clube da Esquina habitaram todas as minhas vitrolas, todos os meus momentos mineiros e cariocas, numa época em quem o Pop Rock Nacional explodia com força na Zona Sul da Cidade Maravilhosa e escoava pelo resto do Brasil.  
Aquele andar vagaroso, um pouco cansado, acompanhado de um branco e largo sorriso, veio na minha direção. Um ídolo que cumprimenta com um abraço forte que só grandes amigos oferecem.  
Perguntei se o local poderia ser aquele, mas se ele se incomodasse poderíamos providenciar um outro local.  Aos 70 anos, Milton Nascimento carregava consigo a praticidade e ausência total de frescuras ou estrelismos. Poderia ser ali mesmo. 
Começamos a conversar, falei sobre a coluna, citei alguns de seus amigos e parceiros que já havia passado por ela. 
Falamos de vida, amor e da mística da amizade com os Borges, com Wagner Tiso,  com o Clube todo! Falamos de parcerias e... de animais! Sim, porque aos olhos do poeta, animais são os melhores amigos que se pode ter. 
Este trecho da entrevista não foi ao ar. Mas não me contive e logo ao fim da gravação falei do meu trabalho como protetora de animais de rua e que tinha começado uma campanha na TV. Eu nem precisei pedir. "Você quer que eu grave um depoimento, Margot?? Com o maior prazer."
E foi assim que Milton Nascimento se tornou um "Amigo do Pelo", com um VT de 30 segundos na grade de programação da afiliada da Globo no Rio Grande do Norte e que ficou no ar por quase 5 meses.
Com a frase "Amizade não se compra" um dos maiores nomes da MPB encerrava seu apelo em forma de campanha pela adoção de animais de rua. 
As luzes foram apagadas, a câmera desligada. Um segundo forte abraço anunciou nossa despedida. Os passos lentos se foram em direção ao elevador, cujas portas se fecharam e abriram de novo minhas pupilas. 
O sonho - pelo menos para mim -  não envelhece. E o mito não morrerá nunca. 
 
 
Fonte:  * "Os Sonhos Não Envelhecem" de Márcio Borges.