O amor imortal de Nélida Pinõn

O Flipipa - Festival Literário da Praia de Pipa - nunca foi pra mim um "trabalho". Muito pelo contrário. Sempre foi uma forma de enriquecer a alma, ouvindo o que realmente interessa, conhecendo quem realmente importa. Ter um plantão de 4 dias, numa praia paradisíaca, hospedada num hotel incrível com vista para o mar, fazendo a cobertura para todos os jornais da emissora com reportagens e entradas ao vivo e, ainda por cima, voltar pra TV com uma bagagem repleta de boas entrevistas para o Cores e Nomes, eram para mim prazeres inenarráveis que compensavam todo o cansaço. 
Em todas as edições, fiz também o cerimonial de apresentação de todas as mesas. Um trabalho free para a Fundação Hélio Galvão, idealizadora e produtora do evento. E às vezes mediava alguns debates. Ou seja: trabalho dobrado, responsabilidade dobrada, cansaço dobrado, mas de satisfação triplicada. 
Fazer jornalismo cultural sempre foi a minha praia. Vim da cultura. Do teatro e da música especificamente, mesmo que de forma amadora, ainda na adolescência. Foi neste mar que me banhei ate descobrir o jornalismo, por pura necessidade. 
Naquela edição do Festival, já tinha feito vários "vivos", tínhamos gerado reportagens para o 3 jornais e gravado um Cores e Nomes com o poeta, compositor -  e também meu amigo -  Abel Silva.  Mas a grande e esperada estrela que encerraria o Festival de 2014, era a imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. 
Naquele sábado, 9 de Agosto, eu dividiria a equipe com outra repórter. Eu tinha um dead-line. E a minha entrevistada dos sonhos não havia chegado ainda. 
E logo eu, que tinha feito de tudo para que o nosso encontro acontecesse. Inclusive sugeri a minha reserva no mesmo hotel em que ela se hospedou. Mas a escritora chegou muito tarde. 
Já eram 5 horas da tarde. Faria o link para o jornal da noite e entregaria a equipe para a produção do domingo. 
Me arrumei, chamei o cinegrafista Edmilson Santos e partimos os dois rumo ao estacionamento. 
Só que no meio do caminho, estava o restaurante do hotel. E numa das inúmeras cadeiras do ambiente avarandado, eu a avistei com seus olhos pequenos, seu sorriso largo e uma quase desconcertante simpatia.  
Não me contive e disse antes mesmo de lhe desejar "boa tarde": 
- Puxa vida, como eu queria entrevistar você. Mas não vai dar certo.  
- Mas porquê não??  
- Sei que você chegou agora de viagem, tenho uma matéria e um link pra fazer agora. Além do mais, não quero atrapalhar seu almoço. Mas acredite: me hospedei aqui, só pra fazer essa entrevista com você.
-De quanto tempo precisaríamos? 20 minutos??
- Sim, sim!!! 
- Garçom, suspenda o almoço, por favor. Tenho um papo com essa moça agora. 
 
Em pouco mais dos 20 minutos prometidos falamos sobre "imortalidade", os amigos da ABL mortos naquela semana - João Ubaldo Ribeiro, Ivan Junqueira e Ariano Suassuna - vida, literatura ...  E como não acredito em coincidências, sem que eu perguntasse absolutamente nada sobre o assunto, Nélida engrenou no tema "amor" para falar de Gravetinho, seu "filho" de quatro patas. 
O convite para participar do livro "Amigos do Pelo" - organizado por mim e dedicado à causa animal -  foi inevitável e prontamente atendido. Nélida nos permitiu a publicação do texto "Gravetinho Piñon", publicado originalmente em seu "Livro das Horas", de 2012.  
Nélida gravou também uma mensagem em vídeo que fez parte da campanha que veiculamos por quase 1 ano na programação da INTERTV Cabugi, afiliada Globo no RN.
Nos despedimos e prometemos nos encontrar no café da manhã.
Segui para a tenda do evento, palco que, em algumas horas, seria dela.  
 
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Durante a palestra que encerrou a quinta edição do FLIPIPA, Nélida Piñon concluiu sua fala declarando seu amor aos animais. Na platéia, para prestigiá-la, havia dois cães. Ela, feliz com os visitantes ilustres, pediu para que eles fossem aplaudidos de pé.
O meu aplauso feliz e agradecido continua sendo para ela. E agora, mais do que nunca, eu sei o que a tornou imortal.

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